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Michelle PantojaLiderança · Direitos Humanos · Desenvolvimento

ESG e Governança

O S da Agenda ESG que Empresas Ainda Subestimam

Governança ambiental avançou nos relatórios; o compromisso social continua sendo o ponto cego da sustentabilidade corporativa

Por Michelle Pantoja25 de março de 20248 min de leitura

Um ensaio sobre por que a dimensão social do ESG segue subfinanciada e mal medida nas empresas brasileiras.

Quando a sigla ESG se popularizou no vocabulário corporativo brasileiro, a partir principalmente de 2019, boa parte das empresas correu para publicar relatórios de sustentabilidade robustos na dimensão ambiental, com metas de redução de carbono, metas de energia renovável e compromissos públicos com o Acordo de Paris. A dimensão de governança também avançou, com comitês de compliance, códigos de conduta e estruturas de auditoria mais sofisticadas. O S, no entanto, o pilar social, permaneceu tratado como apêndice discursivo, presente em campanhas de diversidade e em ações pontuais de responsabilidade social, mas raramente incorporado como métrica central de risco e de valor estratégico de longo prazo.

Essa subestimação tem explicação estrutural: enquanto emissões de carbono podem ser medidas em toneladas e comparadas globalmente por metodologias relativamente padronizadas, o impacto social de uma empresa é mais difícil de quantificar, mais disperso em suas manifestações e mais sujeito a disputas de interpretação. Como medir, com precisão comparável entre empresas, o efeito de uma cadeia de fornecedores sobre comunidades locais, ou o impacto psicológico de uma cultura organizacional tóxica sobre a saúde mental de funcionários? A dificuldade metodológica não deveria justificar a negligência, mas na prática empresarial ela frequentemente serve como desculpa para adiar investimento sério nessa frente.

O Brasil oferece exemplos contundentes de como negligenciar o S pode se converter em risco financeiro concreto, não apenas reputacional. O rompimento da barragem de Brumadinho em 2019, da mineradora Vale, matou 270 pessoas e provocou perdas bilionárias em valor de mercado, processos judiciais internacionais e um acordo de reparação superior a trinta e sete bilhões de reais firmado com o governo de Minas Gerais. Embora o desastre tenha sido tecnicamente classificado como falha de governança e segurança operacional, seu impacto humano e social sobre comunidades inteiras, incluindo populações ribeirinhas e povos indígenas afetados pela lama de rejeitos, ilustra como a fronteira entre os pilares ambiental, social e de governança é, na prática, artificial.

A dimensão social do ESG também engloba a forma como empresas tratam sua própria força de trabalho, e aqui os dados brasileiros revelam contradições persistentes. Pesquisas do Ministério do Trabalho e Emprego sobre resgate de trabalhadores em condição análoga à escravidão mostram que setores como construção civil, agropecuária e confecção continuam registrando casos, muitas vezes ao final de cadeias de fornecimento de grandes marcas que se apresentam publicamente como comprometidas com direitos humanos. Quando o compromisso social não se estende à auditoria rigorosa de fornecedores terceirizados, ele se torna discurso de vitrine incapaz de proteger as pessoas mais vulneráveis dentro da própria cadeia produtiva da empresa.

Investidores institucionais começaram a perceber essa lacuna e a cobrar métricas sociais mais rigorosas. Fundos de pensão e gestoras de recursos que adotam critérios ESG em suas teses de investimento têm ampliado a exigência de indicadores sobre rotatividade de funcionários, equidade salarial entre gêneros e raças, taxas de acidente de trabalho e mecanismos de denúncia interna, entendendo que empresas com alta rotatividade e clima organizacional deteriorado tendem a apresentar maior risco operacional e reputacional no médio prazo. Essa pressão de mercado, ainda incipiente no Brasil comparada a mercados europeus, tem começado a forçar empresas a tratar dados sociais com o mesmo rigor estatístico dedicado há anos aos dados ambientais.

A desigualdade racial dentro das organizações brasileiras é outro ponto em que o S da agenda ESG ainda encontra resistência silenciosa. Levantamentos do Instituto Ethos mostram que, embora a população negra represente mais da metade da população brasileira segundo o Censo do IBGE, sua presença em cargos de diretoria e conselho de grandes empresas permanece marginal, geralmente abaixo de dez por cento. Programas de diversidade anunciados publicamente frequentemente não vêm acompanhados de metas numéricas vinculantes nem de consequências reais para gestores que não avançam nessa agenda, transformando o compromisso social em intenção discursiva sem mecanismo de responsabilização.

Saúde mental no ambiente de trabalho tornou-se, nos últimos anos, outra fronteira urgente do pilar social. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social mostram aumento expressivo nos afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, com a Síndrome de Burnout reconhecida formalmente pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional desde 2022. Empresas que tratam essa questão apenas com palestras motivacionais esporádicas, sem revisar cargas de trabalho, metas irreais ou culturas de disponibilidade permanente, continuam pagando o custo através de absenteísmo, turnover e queda de produtividade, ainda que não reconheçam essa conexão em seus relatórios de sustentabilidade.

O impacto social também se manifesta na relação da empresa com as comunidades em que opera fisicamente. Grandes empreendimentos de infraestrutura e mineração no Brasil frequentemente provocam deslocamento compulsório de populações locais, alteração de modos de vida tradicionais e disputas territoriais que se arrastam por décadas em processos judiciais. Quando o licenciamento social de um empreendimento é tratado apenas como etapa burocrática a ser superada, e não como processo de escuta genuína das comunidades afetadas, o risco de conflito prolongado aumenta, gerando custos jurídicos e reputacionais que superam largamente o investimento que teria sido necessário para um diálogo respeitoso desde o início.

Empresas que efetivamente avançaram na agenda social costumam compartilhar uma característica: tratam o S não como departamento isolado de responsabilidade social corporativa, mas como critério transversal que atravessa decisões de compras, contratação, remuneração e expansão geográfica. Isso significa vincular metas sociais a bônus de executivos, auditar fornecedores com a mesma seriedade dedicada a auditorias financeiras, e criar canais de escuta com comunidades e funcionários que tenham poder real de influenciar decisões, não apenas de registrar reclamações que se perdem em relatórios anuais nunca lidos por quem decide.

A médio prazo, é provável que reguladores brasileiros avancem na exigência de métricas sociais obrigatórias, seguindo tendências já observadas na União Europeia com a Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa, que exige divulgação detalhada sobre força de trabalho, direitos humanos e impacto em comunidades. Empresas brasileiras com operação internacional já sentem essa pressão regulatória crescente, o que deve, gradualmente, obrigar também o mercado doméstico a tratar o pilar social com o mesmo rigor metodológico hoje dedicado às emissões de carbono.

Subestimar o S da agenda ESG não é apenas um erro ético, é um erro estratégico de avaliação de risco. Empresas que ignoram o impacto social de suas operações acumulam passivos invisíveis que, mais cedo ou mais tarde, se manifestam em processos judiciais, fuga de talentos, boicote de consumidores e desconfiança de investidores. Tratar pessoas, comunidades e cadeias produtivas com a mesma seriedade analítica dedicada a metas de carbono não é apenas questão de reputação corporativa; é, cada vez mais, condição de sobrevivência competitiva em um mercado que aprendeu, a duras penas, que sustentabilidade sem justiça social é apenas sustentabilidade pela metade.

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