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Michelle PantojaLiderança · Direitos Humanos · Desenvolvimento

Liderança Feminina

Como Mulheres Podem Construir Capital Político sem Reproduzir Velhos Pactos

Uma leitura sobre autoridade, contexto e os custos invisíveis de liderar sendo mulher.

Por Michelle Pantoja10 de abril de 20239 min de leitura

Um ensaio sobre liderança, poder, reputação e presença feminina em contextos institucionais complexos.

Uma vereadora recém-eleita em uma capital do Sul do país descobriu, em seu primeiro ano de mandato, que boa parte das decisões importantes da câmara municipal era tomada em conversas informais durante partidas de futebol entre colegas homens, às quais ela nunca era convidada, não por hostilidade explícita, mas porque simplesmente não fazia parte do circuito social que historicamente sustentava as negociações políticas locais.

Esse tipo de exclusão informal é um dos obstáculos mais difíceis de nomear e combater na construção de capital político feminino, porque não aparece em nenhuma regra escrita, não pode ser denunciado formalmente, e ainda assim determina, de forma concreta, quem tem acesso à informação estratégica e à negociação de apoio para projetos de lei antes mesmo de eles chegarem à votação em plenário.

Capital político, entendido como capacidade acumulada de influenciar decisões, mobilizar apoio e construir coalizões, foi historicamente construído por homens através de redes que combinam profissão, clube, igreja e parentesco, redes das quais mulheres foram excluídas por décadas de segregação social explícita e, mais recentemente, por barreiras implícitas que persistem mesmo depois da entrada formal de mulheres nesses mesmos espaços institucionais.

Reproduzir os mesmos pactos que sustentaram o poder masculino tradicional, apenas substituindo os protagonistas por mulheres, tende a preservar a lógica de troca de favores e lealdade pessoal que muitas lideranças femininas justamente criticam quando estão fora do poder. O desafio real é construir capital político por vias que não repitam clientelismo, mas que sejam, ainda assim, eficazes dentro das regras concretas do jogo político brasileiro.

Um caminho que tem se mostrado eficaz é a construção de redes horizontais entre mulheres de diferentes partidos e níveis de mandato, como bancadas femininas suprapartidárias que já existem em diversas assembleias legislativas estaduais, permitindo que pautas de interesse comum, como creches, saúde da mulher e combate à violência doméstica, avancem por consenso mesmo em ambientes de forte polarização partidária.

A experiência da bancada feminina do Congresso Nacional na aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006, é referência histórica dessa estratégia: deputadas de partidos rivais construíram coalizão específica em torno de uma pauta compartilhada, demonstrando que capital político pode ser acumulado coletivamente entre mulheres sem depender exclusivamente de barganha individual com lideranças masculinas tradicionais.

Financiamento de campanha continua sendo um dos maiores obstáculos estruturais para mulheres em política brasileira, apesar da Lei das Eleições exigir cota mínima de recursos do fundo partidário para candidaturas femininas. Partidos frequentemente cumprem a cota formalmente, mas direcionam a maior parte dos recursos efetivos para candidaturas masculinas consideradas mais competitivas, perpetuando um ciclo em que mulheres recebem menos recursos, obtêm menos votos e são então descartadas como aposta futura.

Organizações como o Instituto Update e a Elas No Poder têm trabalhado na formação técnica de mulheres candidatas, oferecendo capacitação em captação de recursos, estratégia de campanha e comunicação política, num esforço para reduzir a assimetria de conhecimento técnico que historicamente favoreceu candidaturas masculinas apoiadas por estruturas partidárias mais consolidadas e experientes.

Construir capital político também envolve aprender a lidar com o escrutínio moral desproporcional que candidatas mulheres enfrentam: questionamentos sobre vida pessoal, aparência e capacidade de conciliar mandato com maternidade raramente feitos a candidatos homens em posição equivalente. Vencer esse escrutínio sem se defender de forma excessivamente reativa, mantendo o foco na pauta, é competência política que se desenvolve com experiência e apoio de assessoria preparada.

Um contraponto necessário: nem toda estratégia de construção de capital político horizontal entre mulheres é isenta de tensão interna. Divergências ideológicas legítimas entre mulheres de esquerda e direita, por exemplo, tornam algumas coalizões suprapartidárias frágeis ou limitadas a pautas muito específicas, revelando que gênero compartilhado não elimina automaticamente diferenças políticas substantivas que precisam ser negociadas com a mesma seriedade que qualquer outra aliança política.

Prefeitas e governadoras que romperam tetos de vidro em seus estados, como ocorreu em experiências recentes em diferentes regiões do país, relatam que a sustentação do poder conquistado depende de continuar investindo em bases de apoio populares diretas, e não apenas em alianças de cúpula, justamente porque redes tradicionais de poder tendem a se recompor rapidamente para tentar restringir o espaço de lideranças que desafiam o pacto histórico estabelecido.

Construir capital político sem reproduzir velhos pactos é trabalho de longo prazo, que exige paciência estratégica, formação técnica sólida e disposição de construir alianças novas, ainda que menos consolidadas no curto prazo do que as redes tradicionais. É um caminho mais lento, mas que tem potencial de alterar, de fato, e não apenas cosmeticamente, quem participa da decisão política no Brasil.

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