Ir para o conteúdo
Michelle PantojaLiderança · Direitos Humanos · Desenvolvimento

Atualidades e Sociedade

A Solidariedade como Competência Cívica

Uma leitura sobre o presente, suas pressões e a necessidade de interpretação mais profunda.

Por Michelle Pantoja01 de janeiro de 20256 min de leitura

Um ensaio interpretativo sobre cultura pública, tempo presente e dilemas sociais contemporâneos.

Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, milhares de pessoas se mobilizaram para arrecadar donativos, abrigar desconhecidos e organizar logística de resgate antes mesmo que qualquer estrutura estatal chegasse a determinados bairros. Essa reação espontânea costuma ser lida como prova de bondade humana inata, mas há algo mais preciso a dizer sobre ela: solidariedade eficaz não nasce do nada, ela é competência que se treina, se organiza e se degrada quando não é exercitada.

Tratar a solidariedade como sentimento e não como habilidade cívica é um erro de origem que empobrece o debate público brasileiro. Sentimentos vêm e vão conforme o choque emocional de cada tragédia noticiada; competências, ao contrário, podem ser cultivadas institucionalmente, ensinadas nas escolas, incorporadas em protocolos comunitários e sustentadas independentemente da comoção do momento.

O Brasil tem uma tradição robusta de associativismo popular, das irmandades religiosas coloniais às associações de bairro dos anos 1980, passando pelos mutirões de construção em periferias urbanas. Essa tradição, porém, convive com um esvaziamento recente da vida associativa nas classes médias urbanas, cada vez mais mediadas por aplicativos e menos por vínculos de vizinhança concreta, o que reduz a capilaridade que torna a solidariedade rápida e eficiente em momentos de crise.

Um exemplo contrastante ajuda a entender essa competência em ação: em Petrópolis, após os deslizamentos de 2022, comunidades que já tinham redes de associação de moradores consolidadas conseguiram organizar rotas de evacuação e centros de triagem de doações em horas, enquanto áreas sem esse tecido social dependeram quase inteiramente da resposta, mais lenta, do poder público. A diferença não estava na quantidade de boa vontade individual, mas na existência prévia de estrutura organizativa.

Há também uma dimensão de solidariedade que é sistematicamente desconfortável para o debate público brasileiro: a solidariedade fiscal. Pagar impostos progressivos, sustentar transferências de renda e aceitar que parte da própria prosperidade financie serviços públicos usados majoritariamente por outros são formas de solidariedade menos visíveis do que doar um cobertor, mas talvez mais estruturantes para reduzir desigualdade de forma contínua.

É comum ouvir que o brasileiro é um povo naturalmente solidário, generoso por temperamento, e que bastaria apelar a esse traço de caráter nacional para resolver crises sociais recorrentes. Esse discurso, além de simplificar uma realidade heterogênea, tem o efeito perverso de dispensar o Estado de construir infraestrutura permanente de proteção social, terceirizando para a bondade individual aquilo que deveria ser garantido por política pública estável.

A pandemia de covid-19 escancarou essa tensão. Redes de vizinhança organizaram cestas básicas e caravanas de doação de oxigênio em cidades como Manaus, num esforço admirável de mobilização civil, mas que jamais deveria ter sido necessário na escala em que foi, porque revelava, na verdade, a insuficiência crônica da rede pública de saúde e assistência em regiões historicamente negligenciadas pelo planejamento federal.

Solidariedade como competência cívica também exige aprender a distinguir ajuda emergencial de reparação estrutural. Doar roupas após uma enchente é urgente e necessário, mas se a mesma comunidade for atingida todos os anos pela falta de drenagem urbana, a solidariedade recorrente pode se tornar, sem intenção, um mecanismo de acomodação que retira da administração pública a pressão para resolver a causa do problema.

Escolas públicas que incorporam projetos de aprendizagem por serviço comunitário, nos quais estudantes participam de mutirões reais e não apenas de campanhas simbólicas de arrecadação, têm mostrado resultados interessantes na formação de adultos mais dispostos a se engajar civicamente depois. O aprendizado da solidariedade, como qualquer competência, se consolida pela prática repetida, não pela exposição pontual a discursos inspiradores.

Empresas também têm papel nessa engrenagem, e não apenas por meio de departamentos de responsabilidade social que produzem relatórios anuais bem diagramados. Políticas de licença remunerada para trabalho voluntário, parcerias efetivas com organizações comunitárias locais e disposição de ouvir demandas territoriais antes de desenhar projetos sociais fazem diferença mensurável, ainda que sejam menos vistosas do que uma campanha publicitária de fim de ano.

Um risco que merece nomeação honesta é o da solidariedade seletiva, aquela que se mobiliza com intensidade para certas tragédias amplamente noticiadas e permanece indiferente a sofrimentos crônicos e menos fotogênicos, como a fome silenciosa em territórios indígenas ou a violência obstétrica que atinge desproporcionalmente mulheres negras. Competência cívica madura implica ampliar o repertório de atenção para além do que os algoritmos de redes sociais escolhem amplificar.

Construir essa competência em escala nacional demandaria investimento deliberado em educação para a cidadania, fortalecimento de associações de base e reconhecimento institucional do trabalho voluntário organizado, algo que ainda falta de forma sistemática nas políticas educacionais brasileiras. Sem isso, seguiremos dependendo de comoções pontuais para produzir respostas que deveriam ser estruturais.

Quando a solidariedade deixa de ser vista como excepcionalidade emocional e passa a ser tratada como parte do repertório cívico que qualquer sociedade democrática precisa cultivar, o que muda não é apenas a eficácia da resposta a crises, mas a própria qualidade da convivência coletiva no dia a dia, muito antes que qualquer enchente ou tragédia torne essa competência urgente outra vez.

Ecossistema Michelle Pantoja

HaureaH Academy

A aba oficial de cursos, trilhas formativas, presentes em PDF e aprofundamentos do ecossistema Michelle Pantoja.